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A essência do novo ciclo

Por Caio Rocha

Todo início de ano carrega essa promessa silenciosa de recomeço. Eu sinto isso. Mas, sendo honesto, nem sempre essa “página em branco” vem com leveza. Às vezes, ela pesa. Parece mais uma cobrança do que uma oportunidade.

A gente vira o calendário esperando fôlego novo, mas acorda no dia 2 já cansado. Cansado antes mesmo de começar. Porque tentamos mudar a agenda sem encarar o que está bagunçado por dentro.

Quando o cansaço chega antes de janeiro

Outro dia imaginei alguém, poderia ser eu, poderia ser você. Ele senta para montar as metas do ano novo. Abre o bloco de notas no celular. Escreve “focar mais”, “ser produtivo”, “cuidar do corpo”, “crescer profissionalmente”. Fecha o celular. Suspira. Não por falta de ideias, mas por falta de energia.

Esse cansaço não vem do que ainda vai acontecer. Ele vem do acúmulo. Da comparação constante, da pressão por resultado, do corpo que precisa performar, da mente que não pode falhar. A produtividade vira régua de valor. O descanso vira culpa.

É nesse ponto que lembro de Lamentações: “As misericórdias do Senhor se renovam a cada manhã” (Lm 3:22-23). Cada manhã. Não porque eu dei conta de tudo ontem, mas justamente porque não dei. O novo ciclo começa quando eu aceito a graça de hoje, não quando prometo um amanhã perfeito.

O que a gente insiste em carregar

Entramos no ano novo levando as mesmas bagagens. Erros antigos, decisões mal resolvidas, versões nossas que já não fazem mais sentido. A gente diz que quer o novo, mas não solta o velho.

Isaías fala sem rodeios: “Não se lembrem das coisas passadas… estou fazendo algo novo” (Is 43:18-19). Só que esquecer não é apagar a memória. É parar de usar o passado como sentença.

No cotidiano, isso aparece de forma simples: a dificuldade de se perdoar por não ter sido tudo o que esperavam de nós. A culpa por não acompanhar o ritmo alheio. O medo de tentar de novo e falhar do mesmo jeito. Enquanto isso, o novo passa, silencioso, esperando espaço.

Avançar, mesmo sem todas as respostas

Paulo escreve algo prático e direto: “Esquecendo o que fica para trás, avanço” (Fp 3:13-14). Avançar não é ignorar a dor. É decidir não viver refém dela. Na vida profissional, isso pode significar redefinir sucesso. Na pessoal, pode ser aprender a dizer não. No espiritual, pode ser parar de performar fé e começar a viver processos. Em meio a notificações, prazos e comparações, avançar exige escolhas diárias. Exige foco no que sustenta, não no que só impressiona.

O jeito de caminhar

Com o tempo, fui entendendo que propósito não é um lugar onde a gente chega inteiro. É o jeito como a gente caminha mesmo cansado. É como lidamos com a pressão, com o silêncio, com os limites. Talvez o novo ciclo não peça mais força, mas mais honestidade. Menos promessa e mais presença. E deixo a pergunta que também faço a mim mesmo: o que você está disposto a soltar para atravessar este novo ciclo com mais verdade e menos peso?

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